Se a pesquisa tem evoluído significativamente na
universidade brasileira, pelos menos é isso o que dizem os dados de órgãos
confiáveis, o ensino está estacionado há muito tempo num patamar de
mediocridade e inoperância que, na falta de levantamentos mais completos, salta
aos olhos de qualquer observador sensível à formação dos profissionais.
Desde o final dos anos 60 do século passado, há
quase 50 anos, notam-se registros formais e informais a respeito da ineficácia
das nossas graduações na preparação dos nossos jovens para a atuação competente
nas suas respectivas áreas. A licenciaturas são as que mais são denunciadas nos
estudos acadêmicos sendo evidenciados os seus currículos
antiprofissionalizantes, as desarticulações das suas disciplinas e,
consequentemente, o despreparo dos profissionais egressos de tais cursos.[...]
Se o fracasso das licenciaturas também pode ser
aquilatado pelos resultados sofríveis das nossas crianças e adolescentes nos
testes nacionais e internacionais, a saúde precária de nossa população, a
precariedade dos vários setores produtivos do nosso país, nossa economia
vulnerável, nossa justiça sofrível etc., também poderia indicar o fracasso das
graduações das áreas da saúde, das engenharias, da economia, da administração e
do direito.
Além disso, em muitas manifestações dos
profissionais responsáveis diretamente pelas graduações (professores,
pesquisadores acadêmicos) são freqüentes as referências ao declínio do nível de
conhecimentos prévios dos alunos, à sua falta de interesse em aprender e ainda
são freqüentes as demonstrações do desinteresse do professor pesquisador em
investir em ensino de graduação. [...] Assim como tudo é estanque na gestão universitária,
graduação e pós se distanciam e se tornam independentes, não apenas por
desígnios dos órgãos que as controlam, mas por lógica e valorização que regem o
mundo acadêmico.
Assim como não é possível um ensino superior de
qualidade sem um ensino básico de qualidade, por cabida extensão do raciocínio,
não haverá pós-graduação de excelência sem graduação devidamente qualificada.
Como em todos os processos de preparação pública em uma sociedade complexa como
a nossa, não há soluções miraculosas para tirar as graduações desses fracassos
intermináveis, mas há condições razoáveis dentro das próprias universidades
para a mobilização de busca de saídas factíveis para essas anomalias alongadas
no tempo.
Um bom começo seria a própria universidade fazer um
levantamento honesto, criterioso, científico sobre o nível de qualidade de suas
graduações [...]. Um desses levantamentos, que deveriam ser assumido de maneira
sistemática pelos conselhos de curso, seria o de caracterizar o aluno
ingressante em termos dos seus déficits de conhecimento necessário para os
novos aportes de uma preparação realmente em nível superior.[...]
Outra atenção merecida seria a de se utilizarem as
diretrizes oficiais sobre as graduações para se diminuir a carga disciplinar
dos cursos. [...] Por mais avançados que estejam os estudos curriculares, não
se nota nos conselhos de curso e nos departamentos preocupações em se montarem
os currículos com um número mínimo de disciplinas cujas inserções atendam a
critérios pertinentes de uma formação para uma boa atuação profissional. [...]
Há iniciativas que estão mais à mão e, se houvesse
uma mobilização efetiva dos agentes envolvidos (professores da universidade,
sobretudo) para tomá-las, certamente as nossas graduações poderiam ser vistas
com mais alento e, principalmente, prestar um serviço formativo de melhor
qualidade aos nossos graduandos.
Edson do Carmo Inforsato é professor da Faculdade
de Ciências e Letras, do campus de Araraquara da UNESP.